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É Necessário que Haja Escândalos
A situação é a seguinte: o partido que era visto como o paradigma ético da política brasileira, uma vez no poder, é arrasado por denúncias de corrupção; o governo promove investigações e sinaliza para um “choque de gestão” que venha a por ordem na casa; tudo isso traz ao público a discussão sobre reforma política.
No Brasil, existem debates sazonais que surgem sempre quando estoura uma crise. Aumentou a criminalidade? Houve um crime bárbaro? Então, discute-se sobre reforma nas leis penais, de preferência mais duras. Faleceu um velhinho na fila do INSS? Discute-se sobre reforma da previdência.
As denúncias de corrupção (re)abriram a temporada das questões político-partidárias e suas conseqüentes promiscuidades governamentais. Nesse ciclo sem fim (e sem resultados), abre-se uma nova perspectiva de discussão: quem deve ser reformado, o sistema ou o homem? É o que me proponho a analisar.
Nenhuma reforma política existe sem reforma íntima. E não há reforma íntima sem educação. E não é só educação básica infantil, mas também, e principalmente, adulta. Mas quando chegamos à fase adulta, o aprendizado vai ficando cada vez mais difícil. As idéias vão se sedimentando, as crenças vão virando verdades absolutas.
Nesse sentido, as “reformas” no espírito adulto são sempre mais traumáticas. É difícil de se limpar os odres velhos, remover certos preconceitos, superar certos hábitos, ou vícios. E se os sistemas políticos são produzidos por mãos e mentes humanas, eles só podem estar, senão contaminados, pelo menos diretamente relacionados a essas vicissitudes.
O maior problema do Brasil é a corrupção. Dela derivam todos os outros males deste País, para utilizar uma expressão típica de nosso presidente.
Ao definir os sistemas políticos, Aristóteles refere-se à Monarquia, à Aristocracia e à Republica, tendo como seus correspondentes desvios a tirania, a oligarquia e a demagogia, respectivamente. O governo de um só em benefício de todos passaria a ser em benefício de si mesmo; o governo de poucos em benefício de todos, passaria a ser em benefício desses poucos; e, por fim, o governo de todos, em benefício de todos seria desviado para atender aos interesses de uns poucos.
Só que o pensador grego não tinha o dom de Nostradamus e não podia prever um novo sistema criado por um Estado muitos séculos depois: a Corruptocracia, ou seja, o governo de uma gangue política em benefício de seus interesses ilícitos. E sem correspondente virtuoso. Sim, porque não se pode conceber que alguém se venda em benefício da sociedade. Políticos prostitutas é o cúmulo da decadência. Não se trata apenas de uma mera crítica abusada. No momento em que uma decisão política só se efetiva quando um agente político é comprado, ou quando a aprovação de uma lei depende do valor de mercado de um parlamentar, então percebemos que a questão é um pouco diferente de convicções ideológicas ou de luta de classes. A não ser que se diga que o livre mercado fisiológico que caracteriza a relação entre os Poderes do Estado seja considerado também um triunfo do liberalismo.
Escrito por Marcelo Jobim às 17h48
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(Continuação do texto anterior)
Relacionando o problema da corrupção no Brasil ao que dizíamos sobre a dificuldade de se reformar o espírito adulto, colacionamos a tese do psicoterapeuta João Augusto Figueiró, que em entrevista à revista ISTOÉ (Edição 1864 - 6/7/2005) fala da irrecuperabilidade de um corrupto. A corrupção é um transtorno de personalidade e como tal é “intratável, incurável e irreversível”, segundo o pesquisador do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ou seja, como diz o título da matéria: “Uma vez corrupto, sempre corrupto”. É digno de pena!
O Profeta já dizia, há dois milênios, que é necessário que haja escândalos. Mas, apesar dessa necessidade, no caso da corrupção política, o fato de estar acometido por um transtorno de personalidade, não exime o corrupto das sanções legalmente previstas: “Ai daquele homem por quem o escândalo vem”, completa o Cristo.
Os escândalos, no entanto, servem como uma espécie de despertar de consciência, que não se regenera de uma hora para outra, é claro. Mas enseja tanto uma auto-reflexão por parte de quem comete ou pretende cometer atos ilícitos, como também uma onda de indignação coletiva. Esta, por sua vez, vai fomentando um maior grau de interesse social quanto às questões políticas, capitaneado ou por desencantos de romantismos político-ideológicos ou, e o que é melhor, por um despertar de berço esplêndido da malta alienada.
Isso é o que faz talvez o Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos identificar “qualidades” na crise política e vislumbrar a possibilidade de se aproveitar delas. Ou ainda, como diz Boris Fausto no artigo “Projeções da Crise” (FOLHA - 7/7/2005), é de se acreditar que “Para além de um redesenho de figurinos institucionais, há uma possibilidade positiva de longo prazo incentivada pela crise”.
Não se pode confundir questões psicológicas com fatos sociais, que, segundo Durkheim, devem ser tratados como coisas, ou seja, como algo apreensível externamente. No entanto, se a corrupção é um transtorno de personalidade, ela não pode ser evitada com meros ajustes institucionais, que nunca atingirão o foco do problema.
É triste reconhecer, mas os escândalos são os melhores “choques de gestão” da política brasileira.
Escrito por Marcelo Jobim às 17h46
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Desencanto, sim; decepção, não.
Nesse momento em que passamos por uma das piores crises políticas que atinge em cheio as estruturas do Estado brasileiro, é preciso que nós, Nação brasileira, tenhamos a serenidade necessária para encarar de forma, eu diria salutar, os acontecimentos. Muito se ouve falar daqueles que se dizem “apolíticos”. Recentemente, no depoimento da CPI, a mulher do publicitário Marcos Valério se declarou como tal, querendo passar a imagem de mulher do lar. Mas isso demonstra claramente que a intenção dela era a de se desvincular das maracutaias feitas entre uma classe política deteriorada e empresários como seu esposo. Acontece que política não é isso. O apolítico está mais para o “analfabeto político” de Brecht do que qualquer outra coisa. As constantes crises políticas, carregadas de imoralidade fazem crer, para alguns espíritos, que isso é uma realidade inerente à própria política.
Eu lembro, uma vez, quando o judoca Aurélio Miguel, que tinha conseguido alguns anos antes uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul, apareceu correndo com o presidente Collor que, na época, já estava com lama até o pescoço. Foi então questionado sobre isso no programa do Serginho Groismann, o antigo e saudoso Programa Livre. Resposta? “Sou apolítico”. E ainda foi aplaudido. Estava, no entanto, associando sua imagem de atleta bem sucedido à figura de um presidente corrupto, e isso, quer ele queira ou não, é um ato político. E dos piores.
É que tem gente que usa perfume que mais parece um repelente. Acham que estão abafando, mas na verdade estão é sufocando as pessoas por perto. Isso acontece até com pessoas esclarecidas que gostam de fazer críticas ferinas, mas que no fundo estão escondendo sua incompetência e inabilidade de usar o correto contra o errado. Digo isso porque o nosso momento é de desencanto e não de decepção. O decepcionado é, antes de tudo, um frustrado. Como não conseguem interpretar os fatos além de seus interesses, acham que tudo está perdido.
Já o desencanto é um estágio positivo de maturidade. O momento atual requer a reflexão no sentido de que não devemos nos encantar com pessoas e partidos, colocando neles todas as nossas esperanças, mas manter a crença em nossas próprias idéias e ideais. Enfim, devemos confiar em nós mesmos, sem que isso desnature para um individualismo egoísta, pois aí nosso orgulho pode nos impedir de chegar ao autodesencanto.
O desencanto mostra, apenas, que cometemos um erro de avaliação com relação a pessoas e coisas, mas jamais ele deve atingir os nossos genuínos ideais de transformação da sociedade.
Escrito por Marcelo Jobim às 22h08
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JOBIMBADAS :) > Programa "Queijo Zero"
O clima foi aparentemente calmo nesta segunda que passou e parece que vai se prolongar na semana. Talvez seja a confirmação do ditado popular, para o qual eu faço uma adaptação: “Depois do Delúbio vem a lambança, digo, bonança”. O pedido de desculpas meio enviesado do presidente Lula serviu, como mostra a reportagem de capa da ISTOÉ dessa semana, pelo menos para ele ganhar tempo. O jornal Folha de São Paulo não deu os devidos destaques ao escândalo do mensalão. O programa Roda Viva teve um ar de retrospectiva, reapresentando pontos de entrevistas passadas com os principais personagens da crise, comentados por dois participantes. O Jornal da Globo não iniciou com o tema, preferindo enfocar o reflexo da (in)segurança pública no mercado imobiliário que traz portas, paredes e vidros blindados. Ou seja, a blindagem de Lula não interessa no momento. Só o Jô é que trouxe a entrevista da andrógina deputada juíza Denise Frossard, comentando logicamente sobre CPIs e mensalões.

E por falar em mensalões, parece que nem só com dinheiro alimentam-se e compram-se deputados. Os bichos estão cada vez mais exigentes, pois agora a moeda de troca são prostitutas. A senhora Jeany Mary Corner que o diga. A cafetina que tem esse nome espetacular era a responsável por alimentar o cativeiro do Congresso com o corpo de suas meninas. Se bem que elas estão em casa. Qual a diferença entre vender o corpo e vender o caráter?
Que coisa incrível e lamentável! Para garantir a famosa governabilidade no Brasil o governo precisa distribuir dinheiro, cargos e putas. E o que foi o programa social do governo Lula? Só distribuição assistencialista como o “Fome Zero”. Todo mundo comendo, só que em Brasília deve ter outro nome: seria o “Queijo Zero”. Já corre um zunzum que tem deputados rezando para só aparecerem na lista do mensalão, porque imagina só vir também na lista dos beneficiados pelos serviços da dona Jeany? Putz!

Agora, impressionante mesmo é o sugestivo nome do tesoureiro do Partido Liberal: Jacinto Lamas! Já pensou? Só faltava aparecer a dupla Abílio Rego e Botelho Pinto para incrementar de vez a base de sustentação do governo na Câmara.
É o cúmulo do trocadilho, até porque o Estado brasileiro é uma Federação, e esse nome vem de foederis, que significa “união”, “aliança”, e está sendo levado muito a sério em todos os sentidos.

Escrito por Marcelo Jobim às 00h14
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