Os EUA mostram a cara.
Como bem observou Demétrio Magnoli na Folha, a respeito do drama das vítimas do Katrina em Nova Orleans, “os EUA sabem matar, mas não sabem proteger a vida”. As cenas da devastação em pleno território americano e a desolação de pessoas desabrigadas, na maioria negros e pobres, combinada com o total descaso do governo federal, mostram claramente que para o poder oficial da por enquanto maior potência do mundo o inimigo é outro.
Nada de guerra contra o Terror que abala a “Democracia ocidental”, nada de preocupação com a utilização de armas químicas por teocracias árabes. O inimigo pra eles é o meio ambiente sadio que requer o racionamento da produtividade industrial, mas que compromete o desempenho da economia. Então, pra que assinar o Tratado de Kioto? O inimigo é a solidariedade humana através do socorro a populações de Estados pobres e endividados pelas grandes potências, mas que exige despesas com a logística aplicada na proteção militar a esses povos. Os soldados estão treinados para matar inocentes no Iraque e não a fome dos africanos, por exemplo. E o que é pior: não é um descaso político ou nacionalista. A tragédia em Nova Orleans escancara para o mundo uns Estados Unidos indiferentes com o drama de seus próprios nacionais, principalmente porque são negros, e vivem numa região pobre.
Só falta agora os americanos usarem Hollywood para produzirem filmes mostrando a ira de Alá, a única forma de culpar alguém por suas injustiças, já que o Katrina é um fenômeno natural e não um ataque terrorista do “Eixo do Mal”. Foi assim com os filmes de Farwest, mostrando a “selvageria” dos índios que eles dizimaram para a colonização da América. Foi assim com os filmes sobre a guerra do Vietnã, mostrando a “crueldade” dos soldados vietnamitas contra militares americanos bonzinhos. E por aí vai...
A águia romana fez seu ninho nos Estados Unidos e se transformou no símbolo da força Yankee. Ao contrário do Império dos Césares e sua dominação política, a hegemonia americana se dá pela dominação econômica, influindo na estrutura política dos Estados periféricos. E aí não existe obstáculo: ecologia, autodeterminação dos povos, direitos humanos, cooperação internacional...
É aqui que a águia vai perder suas penas aos poucos. Vivemos séculos racionalizando a moral, transformando-a em documentos escritos e solenes, com abrangência universal. No entanto, sempre estivemos longe da prática. Foi, e ainda está sendo, um período de conscientização dos povos no sentido de valores humanos, individuais e coletivos. No futuro, acredito, não haverá espaço para potências dominadoras. Forte será o Estado que se fundamentar no desenvolvimento humano. Rico será o Estado, não o que possua o maior PIB, mas o que tenha uma população com mais acesso à educação e saúde. Líder mundial será o Estado que basear sua política internacional na cooperação entre os povos para o progresso da humanidade e na solução pacífica dos conflitos.
Sonho? Talvez. Desejo? Com certeza. E somos o que desejamos.
Escrito por Marcelo Jobim às 18h25
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