Democracia e Maioridade política
A cassação de Roberto Jefferson nos serviu para algumas reflexões. A primeira é que a Democracia está consolidada, mas não especificamente por mérito do Câmara dos Deputados, e sim pela abertura à opinião pública do que acontece lá dentro. É o olhar vigilante da Nação que dá um choque de responsabilidade aos representantes do povo. Algo semelhante àquele ditado que diz: “o que engorda o gado é o olho do dono”.
Dizer que a Democracia está consolidada não é o mesmo que dizer que chegamos ao ápice da maturidade política. Não. Esse nunca chegará, pois a evolução humana é contínua, a sociedade se supera e se renova sempre, e novas metas surgem diante de nossas vistas. Como bem diz o professor José Afonso, “a democracia é um processo e não um fim em si mesma”. O pressuposto da Democracia é a sociedade, mas uma sociedade atenta, consciente de seu papel na transformação dos costumes políticos. O oposto do espírito democrático não é só a arbitrariedade repressora de governos ilegítimos, mas também, e principalmente, o desinteresse político de uma sociedade alienada. Estado e Sociedade são co-responsáveis perante a organização de uma vida em comunidade. Se por um lado existe a Organização do Estado, objeto de limitação constitucional do Poder, com o estabelecimento de órgãos e competências, por outro temos a Sociedade civil organizada e o sentido da solidariedade social.
Roberto Jefferson foi inteligente, até que tentou virar o jogo quando, em seu discurso de defesa, procurou discriminar os “poderes”, identificando de onde se originavam as falcatruas: “Vamos atravessar a praça”, disse, numa alusão ao Palácio do Planalto. Com isso, procurou se passar como um representante da Casa da qual era membro, pousando de líder corajoso que luta contra as investidas do “outro poder” que estaria tentando desmoralizar aquele Parlamento. De uma só tacada, tentou conquistar, ao mesmo tempo, seus pares e a opinião pública. Mas não colou. Prevaleceu o medo da opinião pública por parte de seus pares. E aí outra importante reflexão: o jogo do poder se mostra temente diante do olhar atento da sociedade. E o que garante isso? A Democracia, que se apresenta na liberdade de expressão e da exposição de idéias, na fiscalização de uma imprensa livre, no acesso, a quem se interessa, a todos os movimentos da política, desde os bastidores até as atividades oficiais.
É preciso que surjam cada vez mais cidadãos interessados nas questões políticas, e menos interesseiros, pois são estes que, ao lado de pessoas humildes e incautas, sem o devido acesso à educação e à informação, que elegem os Severinos, os Janenes e os Jeffersons da vida e transformam esse País nessa corruptocracia que é o Estado brasileiro. O berço esplêndido começa a ficar desconfortável para essa criança chamada Brasil, que precisa despertar do leito infantil e assumir de vez a responsabilidade e os compromissos inerentes a uma maioridade política.
Escrito por Marcelo Jobim às 22h53
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