VALEI-ME, SÃO FRANCISCO!
Sabe-se que São Francisco de Assis era o santo protetor dos animais e que dedicou toda sua vida aos pobres, ao se desfazer de todos os seus bens e ao iniciar uma vida desprendida dos valores materiais, passando a pregar as máximas do Cristo.
Saindo da Religião e entrando na Ciência, sabe-se também que o que difere o Homem dos outros animais é a racionalidade, atributo exclusivo dos seres humanos. A racionalidade implica, dentre outras coisas, a possibilidade do homem interferir na Natureza. Mas o quesito principal de ser dotado de Razão é possuir inteligência.
Muitas pessoas questionam se os animais irracionais não possuem também inteligência. Eu responderia afirmativamente, é só lembrar as fantásticas façanhas dos golfinhos, macacos, entre outros. Mas essa “inteligência” não é algo que se possa confundir com a Razão humana, pois só esta pode produzir ensaios filosóficos, teorias científicas etc. Até hoje, eu nunca ouvi a notícia de que um javali ganhou o prêmio Nobel de literatura.
Não, por mais que São Francisco vele pelos animais, eles nunca poderão ter uma participação racionalmente ativa na Natureza, serão sempre agentes passivos e meros cooperadores do homem nas diversas atividades por ele desenvolvidas. Pois é, o Homem desenvolveu a razão para explorar a natureza, e não ficar a mercê de seus caprichos, frutos da ira dos deuses. Mas o Homem não se deu conta de que faz parte da natureza e, ao “torturá-la” (na expressão de Francis Bacon), está torturando a si mesmo.
Mas parece ainda que o Homem, muitas vezes, usa toda a sua Razão, ou inteligência humana, justamente para expressar toda sua estupidez. Eu diria que, paradoxalmente, o homem é o único ser vivo racionalmente burro (com o perdão dos muares). Muitos são os fatores que comprovam essa minha observação. Por exemplo, as guerras. Quantos neurônios são gastos por cientistas que procuram desenvolver uma arma tecnologicamente mortífera! Sem falar nas armas químicas que formam gerações de inválidos.
Bem, toda essa introdução é para falar sobre a transposição do São Francisco. O rio, não o Santo, claro. Mais uma vez o homem tenta abusar de sua racionalidade, como fator de intervenção na Natureza e para isso realiza projetos, estudos, pesquisas e conclui que todo um passado de exploração política praticada nos torrões do sertão nordestino pode ser solucionado com uma medida no mínimo fantástica.
Muito simples: pega-se um riozinho aqui, abre-se uma canalzinho acolá, dá uma esticada no leitozinho de água ali e... Eureka! É o fim de todos os problemas acarretados pela seca no Nordeste. Os políticos continuam a fazer as politicalhas de sempre, os empreiteiros ganham dinheiro aos tubos e o rio... Que rio? Secou. A não ser o rio de dinheiro público, esse sim, objeto de uma verdadeira transposição.
Precisa dizer pra onde?
Quando eu era adolescente, eu me lembro que pedia a meu pai para fazer umas modificações no carro: mudar o escape, rebaixar, essas coisas de bestão. E ele me dizia que não faria porque o carro tinha sido projetado durante muito tempo para sair da fábrica daquele jeito, e se mudássemos alguma coisa poderíamos interferir no desempenho dele.
Agora imagine um rio, o maior do Nordeste, fruto de uma Natureza perfeccionista, e que retribui com seus fenômenos fantásticos os atentados contra ela, sendo como que moldada pelo capricho de uns inconseqüentes que não sabem resolver nem os problemas de ensino fundamental do país.
Freud explica: talvez seja o fato de que quando crianças ficaram com um trauma de nunca conseguir fazer uma represinha na areia da praia e agora querem descontar no Rio São Francisco. Não podemos nos acomodar diante dessa ignomínia contra o Velho Chico que se anuncia como uma panacéia para os males do Sertão. Quanto ao bispo dom Luiz Cappio, em greve de fome desde o dia 26 de setembro, quem diria, o senso está do lado da religião, juntamente com todos aqueles que promovem o real valor da Ciência, não a transformando em fundamento para projetos políticos absurdos.
O santo de Assis foi o primeiro a pregar a integração entre o Homem e a Natureza: "Irmão sol, irmã lua". Para concluir, sobre São Francisco, só me resta dizer duas coisas: quanto ao rio, espero que não seja destruído, mas, sim, revitalizado; agora, quanto ao santo, que ele ore pelos seus protegidos, pelo menos os ditos racionais.
Escrito por Marcelo Jobim às 12h59
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