PENA E MÍDIA
Recebi um e-mail que deve estar rodando pela web há muito tempo. É sobre aquele caso da cantora Simony que, no programa dominical do apresentador Gugu Liberato, pedia a libertação do marido preso porque ela (Simony, logicamente) estava grávida. Ou seja, a palhaçada nossa de cada dia. O e-mail traz uma carta supostamente escrita por uma garota de 16 anos comentando o fato, indignada.
Ora, que o programa do Gugu é um poço de mediocridade isso é indiscutível. Tanto que chega a tratar assunto tão sério de forma irresponsável. A garota Priscila tem razão: o fato da mulher estar grávida, sendo celebridade ou não, não é causa justificadora da libertação de um preso antes do cumprimento da pena estabelecida na sentença.
Mas alguns pontos merecem reflexão. Essa abordagem midiática irresponsável sobre o sistema penitenciário, não só em programas de auditório como até mesmo em telejornais, cria uma atmosfera de medo, misturado com ignorância e sentimentos repulsivos violentos contra aqueles que caíram no inferno da prisão. Vejamos a afirmação da garota Priscila, que esconde um paradoxo:
"Concordo que a violência exacerbada que está batendo à nossa porta é fruto do descaso do governo e da sociedade para com as crianças de alguns anos atrás que foram deixadas sem escola, creche crianças abandonadas à própria sorte, mas soltar os bandidos por essa justificativa não resolve”.
O ser humano não muda sua personalidade num passe de mágica. É incoerente ter tanta preocupação com as “crianças sem escola” e ser tão inflexível quando elas se transformam em “bandidos”, por “descaso do governo e da sociedade”. Não que devamos tratar os presos como crianças, mas dar a eles o cuidado devido a seres humanos que se perderam em virtude da injustiça social que grassa em nosso país.
Punição, sim, mas com todos os critérios de racionalidade que uma sociedade justa almeja ter. A pena é de privação de liberdade e não de humanidade. E o reconhecimento disso passa pela forma como nós, sociedade civil, encaramos os fatos. De forma coerente, e não com a hipocrisia de se sensibilizar com crianças abandonadas à própria sorte, não contribuindo com nada para reverter isso, e depois destilar o veneno do ódio sobre os delinqüentes, frutos em grande parte de nossa indiferença social.
Escrito por Marcelo Jobim às 22h08
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